Veslaine Antônio Silva
Desconhecendo
a autoria, mas lembrando de uma encenação de alunos em sala de aula, com
adaptações e arranjos, um modelo diferente de orientação direcionada ao micro e
pequeno empresário, com o objetivo de mostrar que, com a aplicação de simples,
modestos e moderados sistemas de controles administrativos e financeiros, a competitividade no mercado
estará favorecida e a saúde financeira, bem como longevidade da empresa,
garantidas.
Na sala
de reuniões da pequena empresa “FALTA GRANA INDUSTRIAL E COMERCIAL LTDA.”, o
Sócio-gerente, tendo convocado uma reunião, se encontra com o responsável
financeiro, o responsável pelas vendas e o analista contratado, para discutirem
sobre a “SAÚDE FINANCEIRA DA EMPRESA”.
SÓCIO-GERENTE – Senhores, o objetivo desta reunião, é descobrir o que está havendo,
para onde está indo o dinheiro da nossa empresa. Temos realizado excelentes
contratos de financiamento, as vendas caminham muito bem, a nossa margem de
lucro chega a estar acima da expectativa, mas o dinheiro sumiu. A situação está
das piores e as tendências são de piorar mais ainda. Onde está o dinheiro?
RESPONSÁVEL
FINANCEIRO -
bajulador, dando uma de “bom” – Gostaria de fazer uma consideração: as
despesas mensais com financiamentos são elevadíssimas e, pelo que se vê,
deverão comprometer seriamente a situação. É preciso fazer alguma coisa ou a
situação acabará ficando insuportável.
“Diante
dessa manifestação, o sócio-gerente pensa: ESSE CAMARADA ESTÁ MEIO BIRUTA. Se tem
alguma pessoa que tem que fazer alguma coisa para reverter a situação, essa
pessoa é ele mesmo, que é o responsável pela origem e aplicação correta dos
recursos financeiros da empresa, e acaba por dizer:”
SÓCIO-GERENTE – No que me compete, estou completamente atado, nem sei para onde foi
todo o dinheiro, mesmo com altos faturamentos. Nem sei o que fazer.
RESPONSÁVEL
PELAS VENDAS, dando
uma de fininho, pedindo a palavra - Eu tenho feito de tudo para colaborar de
todas as formas. Tenho vendido tudo certinho, cumprindo excelentemente a
programação, não tenho autorizado nenhum desconto acima dos limites e, “não assino cheques nem vales”.
O responsável financeiro ajeita-se na sua poltrona,
bate o olho no gerente de vendas, e, pensa, mas não diz: “QUE NEGÓCIO É ESSE? O QUE É QUE
ESSE DESGRAÇADO QUER DIZER COM 'NÃO ASSINO CHEQUES?' Esse porcaria desse camelô deve estar insinuando o quê a
meu respeito?"
ANALISTA
– Esta discussão, simplesmente não tem
sentido.
SÓCIO-GERENTE
– Não tem sentido? Depois do que falamos, não
tem sentido? Como assim? Não estou entendendo senhor analista.
ANALISTA
– Minha posição não é de simpatia ou
antipatia diante de todos, a não ser estar preso à linguagem dos números. Não
está nada complicado, pelo contrário, está tudo muito simples. Se o assunto é
saber “PARA ONDE FORAM OS RECURSOS FINANCEIROS”, isto já foi respondido
há um bom tempo e, segundo me informei junto à assessoria, com todo o respeito,
todos os senhores já foram comunicados, não só desta vez como muitas vezes no
passado, sempre em tempo oportuno, mostrando a sequência dos fatos. O que tem
ocorrido, talvez tenha sido a falta de tempo ou mesmo uma atenção
desinteressada sobre os relatórios econômico-financeiros elaborados mensalmente
pela assessoria.
SÓCIO-GERENTE – Essa é fantástica. Estou preocupado em saber para onde está indo o
dinheiro e o senhor ANALISTA diz que a assessoria tem informado sobre isso,
periódica e sistematicamente em forma de relatórios. O senhor conseguiu me
deixar nervoso, será que o senhor está me chamando de cego ou de ignorante? É
melhor deixar isso bem claro, caso contrário, senhor ANALISTA, a coisa pode
ficar preta... Dá para explicar isso melhor e como esses relatórios e
informações têm chegado ao nosso conhecimento?
ANALISTA - É claro, é muito simples, disse com certa autoridade. No final de todo
mês, a assessoria, baseada nos registros das operações, tem remetido a todos os
senhores gerentes e responsáveis, além dos Balancetes e Demonstrações de
Resultados, além também de vários demonstrativos de controle, um relatório
chamado DEMONSTRATIVO DE FONTES E APLICAÇÕES DE RECURSOS FINANCEIROS, com
comentários, críticas e sugestões.
SÓCIO-GERENTE – Ah! Estou me lembrando desse título numa folhinha. Nunca me preocupei.
Aquilo não é apenas uma exigência da Lei das Sociedades Anônimas? Nossa empresa
é pequena e é sociedade limitada.
ANALISTA – Realmente é uma exigência legal, que infelizmente muita gente pensa,
que é só para atender ao fisco, esquecendo que a Administração existe, para
todos os donos e gerentes de empresas e não somente para o fisco. Embora não
seja uma grande empresa, ou uma sociedade anônima, os princípios
administrativos se aplicam, até mesmo ao “boteco” da esquina. O relatório,
assim como outros demonstrativos, são necessários para se analisar a
movimentação dos recursos financeiros, e as tendências da empresa. Eles são emitidos periodicamente, ou mensal,
ou trimestral ou semestralmente, etc. Aqui na empresa eles são emitidos
mensalmente para efeito de controle interno e para que se dê tempo para tomadas
de decisões administrativas, mudança de políticas etc., antes que a coisa fique
insustentável, se for o caso”.
SÓCIO-GERENTE meio nervoso – Dá para explicar um pouco melhor esse negócio, sem
enrolação, mostrando como esse relatório indica claramente onde foi parar o
nosso dinheiro?
ANALISTA - Abrindo sua pasta,
retirando um documento, distribuindo cópias, diz: - Aqui está senhores, o
relatório “DEMONSTRATIVO DE FONTES E APLICAÇÕES DE RECURSOS FINANCEIROS”
referente ao último período analisado, já enviado aos senhores, que mostra o
agravamento da situação. Observem que na parte “A” do relatório se pode ver
informações sobre as fontes de recursos, ou seja, de onde vieram os recursos de
$577.323 que foram aplicados no período.
(Com esse
relatório nas mãos, o ANALISTA continuou...)
ANALISTA – A atividade
operacional da empresa contribuiu com 31,1% das fontes de recursos, ou seja,
$179.354. Os sócios, com $34.500, aumentaram sua participação na empresa, que
representa apenas 6,0% do total enquanto que o maior ingresso foi de $363.469,
proveniente de empréstimos a longo prazo junto às instituições financeiras, que
representa 62,9%.
SÓCIO-GERENTE – Tudo bem está tudo muito bonito,
mas o que estamos interessados é saber para onde foi o dinheiro.
RESPONSÁVEL FINANCEIRO – novamente bajulando, diz: oras bolas!
Onde fomos buscar os recursos, está mais do que claro que sabemos. Só não me
lembrava das depreciações que deveriam ser somadas, por se tratar de uma
espécie de lucro retido, já que, embora sejam consideradas despesas diante do
fisco, referem-se a um dinheiro que saiu, contabilmente, mas que na realidade
não aconteceu. O que queremos saber, como bem disse o nosso SÓCIO GERENTE, é
para onde foi o dinheiro, pois a situação não está para brincadeiras. Vamos,
vamos, o senhor foi contratado para isso.
ANALISTA – Desculpe-me senhor
Responsável Financeiro, achei que o senhor tivesse conhecimento dessa situação.
Então vamos lá. Olhe para a parte “B” do demonstrativo. Aí está a resposta sobre
onde foram parar os recursos financeiros.
SÓCIO-GERENTE – Quer dizer então que 57,2% dos recursos foram utilizados para a compra
de Ativos Fixos, ou seja, Máquinas, Móveis e Utensílios, Equipamentos, etc.,
pensando numa não planejada expectativa de crescimento da produção e vendas o
que não aconteceu?
“Falava
e olhava para o responsável financeiro, que por sua vez escorregava da cadeira
e desejava que naquele momento ocorresse uma tromba d´água para que, com isso, a
reunião terminasse”.
SÓCIO-GERENTE – (continuando) – Os senhores, com caras lavadas, têm coragem de dizer que
não sabem onde foi parar o dinheiro? É o cúmulo, é um absurdo, sobraram só 4,6%
dos recursos para reforço do Capital de Giro? (BUFAVA E BUFAVA...) E você,
senhor Responsável Financeiro, que fez suas críticas engraçadinhas, acho que
anda muito ocupado controlando as secretárias, montado exuberantes salas com
belos móveis e utensílios e se esquecendo de que a empresa merece um pouco mais
de sua atenção. Você devia ter me avisado...
ANALISTA – Peço desculpas mais uma vez,
senhor Sócio Gerente, mas minha posição é de franqueza, mesmo que com isso
desagrade a todos.
O
senhor está se esquecendo que a empresa tem um sistema
administrativo-financeiro por mim implantado, orientando um assessor de
confiança, indicado pelo senhor, que elabora um fluxo de informações sobre o
andamento dos negócios, que nos dias atuais, de forte concorrência, de baixa
margem de lucro, qualquer deslize pode ser fatal.
O
senhor recebe os demonstrativos acompanhados de relatórios mostrando as
tendências, mas tudo leva a crer que o senhor não os lê. Pelo que pude sentir,
todo mundo aqui quer mandar, fora os paternalismos. E tem mais, o senhor não
viu que, além do pró-labore mensal, 28% dos recursos referem-se às retiradas dos
sócios e o senhor sozinho, tem 94% de participação na empresa e, é claro,
autorizou a retirada, não importando o que acontecesse.
Tive dificuldades ao exercer o
trabalho para o qual fui contratado. Fui muito criticado por alguns dos seus
colaboradores, mas estou avisando que estamos cheio de empresas que não se
preocuparam com a administração e com a análise de informações registradas. Cheias de
”executivos” que querem sugar o máximo possível, e que acabarão na rua da
amargura, lembrando ainda que poderão responder até com bens particulares.
(terminou até suando e pensou: depois dessa, acho que não serei mais
contratado...)
SÓCIO-GERENTE – pigarreando, despistando, vendo que é o grande culpado pela situação da empresa e com um sorriso
amarelo diz: – Bem senhores... Devido ao avançado da hora, vamos passar para o
item seguinte da ordem do dia. Vamos colocar em votação. Na opinião de vocês,
devemos continuar servindo cafezinho em xícaras de louça ou em copinhos
plásticos descartáveis?
E assim, a empresa vai sustentando o sócio-gerente, apesar de não ter condições de se sustentar. Trata-se de uma empresa fadada ao fracasso. Como esta empresa, existem muitas por aí. Reflita, analise se você também não está sendo um administrador que não dá a devida importância aos dados e relatórios de sua empresa.
Publicação baseada nos livros do autor.

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