terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

ONDE ESTÁ O DINHEIRO DA EMPRESA?


Veslaine Antônio Silva


Desconhecendo a autoria, mas lembrando de uma encenação de alunos em sala de aula, com adaptações e arranjos, um modelo diferente de orientação direcionada ao micro e pequeno empresário, com o objetivo de mostrar que, com a aplicação de simples, modestos e moderados sistemas de controles administrativos  e financeiros, a competitividade no mercado estará favorecida e a saúde financeira, bem como longevidade da empresa, garantidas.

Na sala de reuniões da pequena empresa “FALTA GRANA INDUSTRIAL E COMERCIAL LTDA.”, o Sócio-gerente, tendo convocado uma reunião, se encontra com o responsável financeiro, o responsável pelas vendas e o analista contratado, para discutirem sobre a “SAÚDE FINANCEIRA DA EMPRESA”.


SÓCIO-GERENTE Senhores, o objetivo desta reunião, é descobrir o que está havendo, para onde está indo o dinheiro da nossa empresa. Temos realizado excelentes contratos de financiamento, as vendas caminham muito bem, a nossa margem de lucro chega a estar acima da expectativa, mas o dinheiro sumiu. A situação está das piores e as tendências são de piorar mais ainda. Onde está o dinheiro?
 
RESPONSÁVEL FINANCEIRO - bajulador, dando uma de “bom” – Gostaria de fazer uma consideração: as despesas mensais com financiamentos são elevadíssimas e, pelo que se vê, deverão comprometer seriamente a situação. É preciso fazer alguma coisa ou a situação acabará ficando insuportável.
 
“Diante dessa manifestação, o sócio-gerente pensa: ESSE CAMARADA ESTÁ MEIO BIRUTA. Se tem alguma pessoa que tem que fazer alguma coisa para reverter a situação, essa pessoa é ele mesmo, que é o responsável pela origem e aplicação correta dos recursos financeiros da empresa, e acaba por dizer:”
 
SÓCIO-GERENTE No que me compete, estou completamente atado, nem sei para onde foi todo o dinheiro, mesmo com altos faturamentos. Nem sei o que fazer.
 
RESPONSÁVEL PELAS VENDAS, dando uma de fininho, pedindo a palavra - Eu tenho feito de tudo para colaborar de todas as formas. Tenho vendido tudo certinho, cumprindo excelentemente a programação, não tenho autorizado nenhum desconto acima dos limites e, “não assino cheques nem vales”.
 
O responsável financeiro ajeita-se na sua poltrona, bate o olho no gerente de vendas, e, pensa, mas não diz: “QUE NEGÓCIO É ESSE? O QUE É QUE ESSE DESGRAÇADO QUER DIZER COM 'NÃO ASSINO CHEQUES?' Esse porcaria desse camelô deve estar insinuando o quê a meu respeito?"
 
ANALISTA Esta discussão, simplesmente não tem sentido.
 
SÓCIO-GERENTE Não tem sentido? Depois do que falamos, não tem sentido? Como assim? Não estou entendendo senhor analista.
 
ANALISTA Minha posição não é de simpatia ou antipatia diante de todos, a não ser estar preso à linguagem dos números. Não está nada complicado, pelo contrário, está tudo muito simples. Se o assunto é saber “PARA ONDE FORAM OS RECURSOS FINANCEIROS”, isto já foi respondido há um bom tempo e, segundo me informei junto à assessoria, com todo o respeito, todos os senhores já foram comunicados, não só desta vez como muitas vezes no passado, sempre em tempo oportuno, mostrando a sequência dos fatos. O que tem ocorrido, talvez tenha sido a falta de tempo ou mesmo uma atenção desinteressada sobre os relatórios econômico-financeiros elaborados mensalmente pela assessoria.
 
SÓCIO-GERENTE Essa é fantástica. Estou preocupado em saber para onde está indo o dinheiro e o senhor ANALISTA diz que a assessoria tem informado sobre isso, periódica e sistematicamente em forma de relatórios. O senhor conseguiu me deixar nervoso, será que o senhor está me chamando de cego ou de ignorante? É melhor deixar isso bem claro, caso contrário, senhor ANALISTA, a coisa pode ficar preta... Dá para explicar isso melhor e como esses relatórios e informações têm chegado ao nosso conhecimento?
 
ANALISTA - É claro, é muito simples, disse com certa autoridade. No final de todo mês, a assessoria, baseada nos registros das operações, tem remetido a todos os senhores gerentes e responsáveis, além dos Balancetes e Demonstrações de Resultados, além também de vários demonstrativos de controle, um relatório chamado DEMONSTRATIVO DE FONTES E APLICAÇÕES DE RECURSOS FINANCEIROS, com comentários, críticas e sugestões.
 
SÓCIO-GERENTE Ah! Estou me lembrando desse título numa folhinha. Nunca me preocupei. Aquilo não é apenas uma exigência da Lei das Sociedades Anônimas? Nossa empresa é pequena e é sociedade limitada.
 
ANALISTA Realmente é uma exigência legal, que infelizmente muita gente pensa, que é só para atender ao fisco, esquecendo que a Administração existe, para todos os donos e gerentes de empresas e não somente para o fisco. Embora não seja uma grande empresa, ou uma sociedade anônima, os princípios administrativos se aplicam, até mesmo ao “boteco” da esquina. O relatório, assim como outros demonstrativos, são necessários para se analisar a movimentação dos recursos financeiros, e as tendências da empresa.  Eles são emitidos periodicamente, ou mensal, ou trimestral ou semestralmente, etc. Aqui na empresa eles são emitidos mensalmente para efeito de controle interno e para que se dê tempo para tomadas de decisões administrativas, mudança de políticas etc., antes que a coisa fique insustentável, se for o caso”.
 
SÓCIO-GERENTE meio nervoso – Dá para explicar um pouco melhor esse negócio, sem enrolação, mostrando como esse relatório indica claramente onde foi parar o nosso dinheiro?
 
ANALISTA - Abrindo sua pasta, retirando um documento, distribuindo cópias, diz: - Aqui está senhores, o relatório “DEMONSTRATIVO DE FONTES E APLICAÇÕES DE RECURSOS FINANCEIROS” referente ao último período analisado, já enviado aos senhores, que mostra o agravamento da situação. Observem que na parte “A” do relatório se pode ver informações sobre as fontes de recursos, ou seja, de onde vieram os recursos de $577.323 que foram aplicados no período.
 
(Com esse relatório nas mãos, o ANALISTA continuou...)
 
ANALISTA – A atividade operacional da empresa contribuiu com 31,1% das fontes de recursos, ou seja, $179.354. Os sócios, com $34.500, aumentaram sua participação na empresa, que representa apenas 6,0% do total enquanto que o maior ingresso foi de $363.469, proveniente de empréstimos a longo prazo junto às instituições financeiras, que representa 62,9%.
 
SÓCIO-GERENTETudo bem está tudo muito bonito, mas o que estamos interessados é saber para onde foi o dinheiro.
 
RESPONSÁVEL FINANCEIROnovamente bajulando, diz: oras bolas! Onde fomos buscar os recursos, está mais do que claro que sabemos. Só não me lembrava das depreciações que deveriam ser somadas, por se tratar de uma espécie de lucro retido, já que, embora sejam consideradas despesas diante do fisco, referem-se a um dinheiro que saiu, contabilmente, mas que na realidade não aconteceu. O que queremos saber, como bem disse o nosso SÓCIO GERENTE, é para onde foi o dinheiro, pois a situação não está para brincadeiras. Vamos, vamos, o senhor foi contratado para isso.
 
ANALISTA – Desculpe-me senhor Responsável Financeiro, achei que o senhor tivesse conhecimento dessa situação. Então vamos lá. Olhe para a parte “B” do demonstrativo. Aí está a resposta sobre onde foram parar os recursos financeiros.



SÓCIO-GERENTE Quer dizer então que 57,2% dos recursos foram utilizados para a compra de Ativos Fixos, ou seja, Máquinas, Móveis e Utensílios, Equipamentos, etc., pensando numa não planejada expectativa de crescimento da produção e vendas o que não aconteceu?
           
            “Falava e olhava para o responsável financeiro, que por sua vez escorregava da cadeira e desejava que naquele momento ocorresse uma tromba d´água para que, com isso, a reunião terminasse”.
 
SÓCIO-GERENTE(continuando) – Os senhores, com caras lavadas, têm coragem de dizer que não sabem onde foi parar o dinheiro? É o cúmulo, é um absurdo, sobraram só 4,6% dos recursos para reforço do Capital de Giro? (BUFAVA E BUFAVA...) E você, senhor Responsável Financeiro, que fez suas críticas engraçadinhas, acho que anda muito ocupado controlando as secretárias, montado exuberantes salas com belos móveis e utensílios e se esquecendo de que a empresa merece um pouco mais de sua atenção. Você devia ter me avisado...
 
ANALISTA – Peço desculpas mais uma vez, senhor Sócio Gerente, mas minha posição é de franqueza, mesmo que com isso desagrade a todos.
 
            O senhor está se esquecendo que a empresa tem um sistema administrativo-financeiro por mim implantado, orientando um assessor de confiança, indicado pelo senhor, que elabora um fluxo de informações sobre o andamento dos negócios, que nos dias atuais, de forte concorrência, de baixa margem de lucro, qualquer deslize pode ser fatal.
 
            O senhor recebe os demonstrativos acompanhados de relatórios mostrando as tendências, mas tudo leva a crer que o senhor não os lê. Pelo que pude sentir, todo mundo aqui quer mandar, fora os paternalismos. E tem mais, o senhor não viu que, além do pró-labore mensal, 28% dos recursos referem-se às retiradas dos sócios e o senhor sozinho, tem 94% de participação na empresa e, é claro, autorizou a retirada, não importando o que acontecesse.
 
            Tive dificuldades ao exercer o trabalho para o qual fui contratado. Fui muito criticado por alguns dos seus colaboradores, mas estou avisando que estamos cheio de empresas que não se preocuparam com a administração e com a análise de informações registradas. Cheias de ”executivos” que querem sugar o máximo possível, e que acabarão na rua da amargura, lembrando ainda que poderão responder até com bens particulares. (terminou até suando e pensou: depois dessa, acho que não serei mais contratado...)
 
 
SÓCIO-GERENTEpigarreando, despistando, vendo que é o grande culpado pela situação da empresa e com um sorriso amarelo diz: – Bem senhores... Devido ao avançado da hora, vamos passar para o item seguinte da ordem do dia. Vamos colocar em votação. Na opinião de vocês, devemos continuar servindo cafezinho em xícaras de louça ou em copinhos plásticos descartáveis?

E assim, a empresa vai sustentando o sócio-gerente, apesar de não ter condições de se sustentar. Trata-se de uma empresa fadada ao fracasso. Como esta empresa, existem muitas por aí. Reflita, analise se você também não está sendo um administrador que não dá a devida importância aos dados e relatórios de sua empresa.

Publicação baseada nos livros do autor.